sábado, junho 20, 2009

"ROSA ENJEITADA" e o "Fado Aristocrático"



(Doc. "Berta Cardoso na Revista")

Como já referi no post anterior, o fado "Rosa enjeitada" foi estreado no teatro de revista, tendo aí tido como intérpretes duas das mais representativas cantadeiras-actrizes do séc. XX - Hermínia Silva e Berta Cardoso. Este documento, que aqui se reproduz, corresponde à fala cantada pela Rosa Engeitada (letra do fado), papel desempenhado por Berta Cardoso.
A letra deste fado resume, digamos assim, a trama que enforma o melodrama (1901), da autoria de D. João da Câmara, cujo nome é o da personagem principal, a Rosa Engeitada; e, afinal, quem era essa Rosa engeitada? uma rameira, que vive com Francisco (o homem de quem gosta e que sustenta) e que pensa mudar de vida, mas não consegue, não tem coragem... até que um dia, conhece um outro rapaz, o João - trabalhador, simples, honesto -, em tudo a antítese do Francisco, nascendo desse encontro o amor verdadeiro que faz renascer na meretriz a esperança de uma nova vida...
É, como se vê, uma história actualíssima, melhor, de todos os tempos... um drama vivencial cujas implicações sociais não têm hoje, digo eu, a carga reprobatória e de indesculpabilidade que tinham então, mesmo já em finais da primeira metade do século XX, altura em que Maria Teresa de Noronha se deixou enCANTAR por este fado, da autoria de José Galhardo e de Raúl Ferrão, enCANTAmento bem patente na sua magnífica interpretação, recordada neste vídeo.
Já agora, a talho de foice, presta-se perguntar: é este o fado que os especialistas designam por "fado aristocrático"?!...
Esta é uma etiqueta com que sempre embirrei porque não alcanço qualquer bom motivo para que se empregue. Vejamos. À semelhança do designado "Fado Marialva", onde cabem todos os fados com determinada temática, o "Fado Aristocrático" deveria designar e englobar os fados que obedecessem a uma certa temática, por certo relacionada com a aristocracia, ou forma de poema ou qualquer música associada, mas isso não se verifica efectivamente... Assim, essa designação apenas indicará, por certo, o estatuto aristocrático de alguns intérpretes do Fado, e, nesta perspectiva, parece-me absolutamente desadequada, melhor, incorrecta, porque, em boa verdade, não é o fado que passa a ser aristocrático, mas sim os aristocratas que passam a ser fadistas... E, embora eu não consiga descortinar a mais valia de colocar numa mesma gaveta os aristocratas que enfileiraram pela carreira de fadistas e etiquetá-los, o que desde logo se me afigura até uma forma de discriminação, se bem que positiva, entendo que a designação mais correcta seria, então, a de "Fadistas Aristocráticos", pois é disso que se trata, e nunca "Fado Aristocrático" que, até prova em contrário, não existe.
O Fado é do Povo e, por isso, não é aristocrático, mesmo que cantado por um fidalgo, acompanhado ao piano, no salão do seu palacete...
Mas, não sendo aristocrático, o Fado é nobre, tão nobre quanto o Povo que canta e que o canta, aristocratas incluídos...
Porque o Fado é a expressão da Alma de um Povo que na História é reconhecido pela sua nobreza de carácter! Esta é a verdadeira nobreza e a mais valia do Fado.
VÍDEO DE HOMENAGEM
video

domingo, junho 14, 2009

FIDALGOS POETAS E FADISTAS




























Andava eu a tentar pôr uma certa ordem na papelada, cairam-me os olhos neste artigo, datado de 1908, de Júlio Dantas, que é, de facto, uma página de História, documento que eu tinha seleccionado para, em tempo, divulgar... Nem de propósito (nada é por acaso), contacta-me o amigo Antón, do blog http://fadous.blogspot.com/, pretendendo informações acerca do poeta de fado D. António de Bragança, autor, entre outras, da letra do "Fado das Horas"...

Respondi-lhe muito atabalhoadamente, dando-lhe informação do pouco que sabia e pensei então que seria tempo de melhor me informar e publicar esta página, pretexto para recordar alguns Fidalgos, da melhor linhagem Portuguesa, cujo contributo tem enobrecido e enriquecido a família fadista.

Este artigo de Júlio Dantas evoca, nem mais nem menos, a figura do eminente dramaturgo e poeta Dom João Maria Evangelista Gonçalves Zarco da Camara (1852 - 1908), autor da peça "Rosa Engeitada", donde se extraiu a opereta popular com o mesmo nome e um dos mais emblemáticos fados, superiormente interpretado por Hermínia Silva, Berta Cardoso, Fernanda Maria e Maria Teresa de Noronha, que o celebrizou; de uma simplicidade e afabilidade notáveis, D. Maria Teresa do Carmo de Noronha, bisneta do 2º Conde de Paraty, dedicou a sua vida (1918 - 1993) ao fado, tendo mesmo casado com o distinto compositor e guitarrista amador José António Barbosa de Guimarães Serôdio, filho do 2º Conde de Sabrosa; era, podemos dizer, um nobre casal fadista! Igualmente descendente de Dom João da Camara e sobrinho de D. Maria Teresa de Noronha, é o consagrado fadista Vicente da Câmara (1928), D. Vicente Maria do Carmo de Noronha da Camara, filho de D. João Luís de Seabra da Camara (1905) e pai do também fadista José da Camara (1967), D. José do Carmo de Ataíde da Camara.
Finalmente, o poeta de fado D. António José Manuel de Bragança (1895 - 1964), autor, entre outros, do célebre Fado das Horas, pai de D. Segismundo Caetano da Camara de Bragança(1925), violista amador de reconhecido mérito, primo de Vicente da Câmara e sobrinho de uma das mais emblemáticas figuras da boémia lisboeta do passado século, frequentador assíduo de casas de fado, particularmente da Adega Mesquita, de cujo dono era muito amigo - refiro-me, claro está, a D. Pedro João Libânio Manuel de Bragança (1885 - 1972).
Destes diria eu, parafraseando Júlio Dantas, que não tiveram "de inventar um brazão como Garrett" e nem o tiveram também que inventar dois outros nobres fadistas que não poderia deixar de aqui lembrar - Frei D. Hermano Vasco Villar Cabral da Câmara (1934) e Nuno Maria de Figueiredo Cabral da Camara Pereira (1951).
Todos descendentes de D. Afonso Henriques, de resto como o era também a grande actriz IVONE SILVA, de sua graça Maria Ivone da Silva Nunes (1935 - 1987)...
Com todos estes dignos cultivadores e amantes de fado, comprovados representantes da mais nobre linhagem portuguesa, digam lá que o fado era apenas canção de rameiras e rufias!...
E se o era, lá teria os seus encantos para rapidamente o deixar de ser. De facto, parece-me que o célebre par da fadista Severa e do Conde de Vimioso é, para além dessa história, o ícone dessa sistemática e apaixonada transgressão que sempre uniu as mais nobres às mais populares casas portuguesas, proporcionando uma apetecida e saudável renovação genética, que, de tão proveitosa, levou à ratificação dessa fantástica e nobre instituição que é a bastardia!...
Ligação: Acerca deste assunto pode ler, em inglês, o artigo mais específico sobre Dom António de Bragança, the Author of the “Fado das Horas” , por Anton Garcia-Fernandez.