Aqui tem a resposta. E, antes que não leia, para lhe aguçar a curiosidade, posso adiantar que este exigentecrítico inglês de que se fala, afinal seria bem português e até pouco perceberia de música... É claro que a Amália nada tem a ver com esta "técnica de vendas" de que nem necessitava; contudo, parece-me interessante lembrar o quanto a nossa ignorância se deixa enganar por estas falsas luminárias que tanto nos deslumbram, particularmente se ostentarem assim um nome estrangeiro ou estrangeirado que baste... Que crédito teria um Guilherme em terras Lusas?!...
De Carlos Paniágua e de J. Maria dos Anjos, "Aragem", na interpretação de Alfredo Monderrei, acompanhado pelo Conjunto de Guitarras de António Luís Gomes
Isaura Gonçalves, que em 1954 era já uma "promessa" no Fado, faz-se ouvir na "Parreirinha de Alfama", de cujo elenco faziam então parte a consagrada Berta Cardoso e o notável Júlio Vieitas. Aqui a lembro hoje, interpretando esta belíssima "Nostalgia do Fado", de António Mestre e de José M. Rodrigues, acompanhada à guitarra por A. Chainho e Fernando de Freitas e, à viola, por J. Mª Nóbrega e Raul Silva.
Um fado da autoria de F.B.Rodrigues e de M. Figueiredo, interpretado por Emílio dos Santos
"Quando a meu peito encostada / Seguro a minha guitarra / Faço tal qual a cigarra / Canto cantigas mais nada / O nosso fado que dizem ser fatalista / Nele tenho devoção, sou fadista / E canto com o coração "
"A rua do meu fado", de Lopes Victor e de Martinho d'Assunção, é o fado que escolhi para lembrar Valentina Félix, acompanhada por Francisco Carvalhinho e Jorge Fontes, à guitarra, e por Martinho d'Assunção, à viola.
À guitarra: José Nunes e Francisco Peres, à viola: Humberto Andrade, na viola-baixo: Raúl Silva, acompanham Anabela Silva que interpreta um fado de Artur Ribeiro e Miguel Ramos - "Atalhos proibidos".
Lá diz o povo que "quem se mete em atalhos, mete-se em trabalhos"; demais, proibidos... "Pode chegar ao fim e não ter nada!"
Ilust. 1930 (do filme "Lisboa", de Leitão de Barros)
Muitos outros fadistas houve que, de profissão, tinham esta arte; dum, particularmente, me lembro agora, Rei no Fado - Fernando Maurício, "O Rei sem coroa" como o intitulou Diogo Varela Silva no documentário que fez acerca da vida e obra desse enorme quão genuíno fadista.
Eis aqui a notícia da morte da "última fadista", a Júlia florista, grande aficionada e muito estimada no meio tauromáquico. Vamos recordá-la com o fado que leva o seu nome, da autoria de Leonel Vilar e de Joaquim Pimentel, na interpretação de Maria José Villar.
É esse o título dum curioso livro, editado em Portugal nos anos 60 (1968-1969?), com texto em português, francês, inglês e espanhol, da autoria de A. Martins Rodrigues e colaboradores, particularmente destinado "aos portugueses espalhados pelo mundo" que "não podem saber que as virtudes da raça se mantém ainda na religiosidade com que escuta o fado ou na intrepidez com que a juventude enfrenta toiros - os toiros que só se criam sob o sol bendito da Península".
Está claro que foi, entre outros, um documento da Propaganda, dirigido aos estrangeiros, tentando captar turistas aos quais se pretendia vender um país quente e luminoso com tradições únicas e inusitadas, que mantinham a sua genuinidade, embora fossem quase tão antigas como o mundo...
Pese embora o caracter comercial da obra e algumas imprecisões que contém, mais me parece importante sublinhar o mérito que a obra então terá tido de lembrar, a uns e dar a conhecer, a outros, algumas das muitas riquezas culturais que Portugal tinha para oferecer aos estrangeiros de fora e de dentro... Muito ilustrado (embora maioritariamente a preto e branco) como convém ao género, é de agradável consulta. Para além do Fado e da Tourada, não foram esquecidos, os Monumentos, Paisagens, o Folclore, o Artesanato e os Vinhos do Porto.
Aqui vos deixo as páginas que se referem à "Parreirinha de Alfama", sob a gerência de Argentina Santos, que sempre primou por ter um elenco de luxo, casa já então muito frequentada por estrangeiros, onde se comia e fadistava muito bem até de madrugada...
Ora escutem
Maria da Fé canta o "Fado de Alfama", uma letra de Torcato da Luz no Fado Nuno
Seguidamente, Natalino Duarte com "Maldição", de Fernando Farinha e H. Lourenço
Natércia da Conceição e "É noite na Mouraria", de António Mestre e de José M. Rodrigues
"Ontem e hoje" é o fado, da autoria de Raul Dias e José Inácio, que Francisco Martinho interpreta
Agora, a pedido de várias famílias, Lina Mª Alves faz-se ouvir no seu conhecido "A mim jurou-me também", com letra do dono da casa, o Alberto Rodrigues, música de A. dos Santos
A fechar o programa, Argentina Santos brinda-nos com "A grandeza do Fado", de Clemente Pereira e Jaime Santos
"Olha à tua volta, com atenção, e o que é que vês, o que é que vai na Procissão?..." Se quer saber a resposta, oiça o Paco, com atenção e, se gostar, pode ouvir mais no CanalCantiga, do Paco, no YouTube. Parabéns!
José Freire interpreta, no Mouraria, uma letra de Luís Durão
Homenagem a Luís Durão Homem probo, amigo leal Luís Durão pertenceu a um grupo mítico de fado lisboeta, chamado “Os Feiticeiros”, onde pontuavam João Ferreira Rosa, João Braga, Ana Rosmaninho e muitos outros. Esses amigos, trouxe-os ele ao Sardoal, várias vezes, para actuarem nas Festas de Setembro do início dos anos 70 do século passado. Faleceu em 7 de Novembro último e a sua homenagem póstuma é aqui feita por Nuno Roldão… Conheci o Luís na infância, quando ele e os pais vieram residir no Sardoal na Quinta de S. Bruno (vulgo Quinta do Carapuço). Foi porém na juventude que a nossa amizade se fortificou, sobretudo através do Álvaro Bandeira. Tenho na memória “patuscadas” várias, quer na quinta, quer noutros locais do Sardoal, feitas com a rapaziada daquele tempo. Com ele travei conversas múltiplas, próprias da juventude e da nossa imaturidade. Com o seu vozeirão tonitruante, bem cedo revelou ser pessoa muito directa, muito pão-pão, queijo-queijo, o que nem sempre era bem entendido por terceiros, sobretudo os adultos. Rosto sempre fechado, um pouco truculento nos diálogos e até nas atitudes, por vezes exaltado e brusco, mas nunca lhe vi guardar rancores. Mais tarde, noutras conversas travadas com ele e com outros do grupo, já em fase de maturidade, bem entendi que como cidadão ele pensava que as verdades não constituíam ofensa, ofensas eram as mentiras. Pensava e agia desse modo frontal. Pessoa sem artifícios de postura e de linguagem, inconformista, essa atitude granjeou-lhe incompreensões, inimizades, ostracismos e muita amargura. Mas a verdade é que o Luís Durão era um homem probo, de coração aberto, amigo leal, solidário com os outros, embora nunca o aparentasse. Sabia ser cordial, afável e simpático no trato. Era uma personagem em conflito consigo próprio. Um dia, ali para os lados de S. Pedro de Alcântara, em pleno PREC, encontrámo-nos casualmente, numa manifestação política do PS. Ele tinha construído uma bandeira com um pano vermelho, aonde colara o símbolo do PS feito em papel. A bandeira pregou-a a um pau de vassoura. Era como que uma sua imagem de marca pessoal. Esta peripécia ficou-me sempre na memória. Cedo porém, como aconteceu com muitas pessoas esclarecidas, afastou-se das movimentações político-partidárias e um dia revelou-me ser um socialista-libertário, muito próximo do pensador Bakunine, a quem imitava nas barbas na perfeição. Contei um dia esse “flash” à mãe, D. Lurdes Durão, que me disse: “O Nuno não ligue, o Luís é um sonhador, e pensa que pode endireitar o mundo, o que ele queria era ver toda a gente feliz”. Talento na música Pelo seu temperamento era um “revoltado” contra o “establishement”. Algumas vezes comentou comigo as desmedidas desigualdades sociais e a impossibilidade de o cidadão comum ter voz. Era uma personalidade em dia com o seu tempo, embora contra o tempo. No Sardoal era conhecido sobremaneira pelo seu talento inato na música e para as questões culturais, que sabia avaliar com a sua formação de economista. Foi um bom fadista amador e um guitarrista virtuoso. Faz parte de uma geração de fadistas locais, entre os quais incluo o meu irmão Ismael Roldão, o Fernando Vale de Rio Grácio e outros do Sardoal e de Lisboa, que ocasionalmente se lhes juntavam. Lamentavelmente, nos últimos doze anos, talvez mais, devido ao agravamento da sua doença, aliada a outras vicissitudes da vida que não cabem neste texto, tornou-se esquivo, fugindo das pessoas, criando uma “muralha” à sua volta, caindo num quase total isolamento, por certo tormentoso. Em 7 de Novembro de 2009, chegou a sua hora e, provavelmente face ao seu amargor, teria sido para ele uma libertação, um fim para o seu sofrimento. É mais um amigo dilecto que parte. Aqueles que, mesmo de longe, nunca deixaram de o estimar, hão-de lembrá-lo sempre pela sua espontaneidade, postura sincera e bondade encapotada. Honraremos pois a sua memória de homem bom. Sabemos todos que a amizade genuína entre as pessoas não as liberta daqueles que faleceram, sabemos também que ele “viverá” connosco. Mais memórias da nossa memória. Nuno Roldão (Foto cedida por Ana Durão, através de Ismael Roldão) in "O Sardoal", nº 61