À guitarra: José Nunes e Francisco Peres, à viola: Humberto Andrade, na viola-baixo: Raúl Silva, acompanham Anabela Silva que interpreta um fado de Artur Ribeiro e Miguel Ramos - "Atalhos proibidos".
Lá diz o povo que "quem se mete em atalhos, mete-se em trabalhos"; demais, proibidos... "Pode chegar ao fim e não ter nada!"
Ilust. 1930 (do filme "Lisboa", de Leitão de Barros)
Muitos outros fadistas houve que, de profissão, tinham esta arte; dum, particularmente, me lembro agora, Rei no Fado - Fernando Maurício, "O Rei sem coroa" como o intitulou Diogo Varela Silva no documentário que fez acerca da vida e obra desse enorme quão genuíno fadista.
Eis aqui a notícia da morte da "última fadista", a Júlia florista, grande aficionada e muito estimada no meio tauromáquico. Vamos recordá-la com o fado que leva o seu nome, da autoria de Leonel Vilar e de Joaquim Pimentel, na interpretação de Maria José Villar.
É esse o título dum curioso livro, editado em Portugal nos anos 60 (1968-1969?), com texto em português, francês, inglês e espanhol, da autoria de A. Martins Rodrigues e colaboradores, particularmente destinado "aos portugueses espalhados pelo mundo" que "não podem saber que as virtudes da raça se mantém ainda na religiosidade com que escuta o fado ou na intrepidez com que a juventude enfrenta toiros - os toiros que só se criam sob o sol bendito da Península".
Está claro que foi, entre outros, um documento da Propaganda, dirigido aos estrangeiros, tentando captar turistas aos quais se pretendia vender um país quente e luminoso com tradições únicas e inusitadas, que mantinham a sua genuinidade, embora fossem quase tão antigas como o mundo...
Pese embora o caracter comercial da obra e algumas imprecisões que contém, mais me parece importante sublinhar o mérito que a obra então terá tido de lembrar, a uns e dar a conhecer, a outros, algumas das muitas riquezas culturais que Portugal tinha para oferecer aos estrangeiros de fora e de dentro... Muito ilustrado (embora maioritariamente a preto e branco) como convém ao género, é de agradável consulta. Para além do Fado e da Tourada, não foram esquecidos, os Monumentos, Paisagens, o Folclore, o Artesanato e os Vinhos do Porto.
Aqui vos deixo as páginas que se referem à "Parreirinha de Alfama", sob a gerência de Argentina Santos, que sempre primou por ter um elenco de luxo, casa já então muito frequentada por estrangeiros, onde se comia e fadistava muito bem até de madrugada...
Ora escutem
Maria da Fé canta o "Fado de Alfama", uma letra de Torcato da Luz no Fado Nuno
Seguidamente, Natalino Duarte com "Maldição", de Fernando Farinha e H. Lourenço
Natércia da Conceição e "É noite na Mouraria", de António Mestre e de José M. Rodrigues
"Ontem e hoje" é o fado, da autoria de Raul Dias e José Inácio, que Francisco Martinho interpreta
Agora, a pedido de várias famílias, Lina Mª Alves faz-se ouvir no seu conhecido "A mim jurou-me também", com letra do dono da casa, o Alberto Rodrigues, música de A. dos Santos
A fechar o programa, Argentina Santos brinda-nos com "A grandeza do Fado", de Clemente Pereira e Jaime Santos
"Olha à tua volta, com atenção, e o que é que vês, o que é que vai na Procissão?..." Se quer saber a resposta, oiça o Paco, com atenção e, se gostar, pode ouvir mais no CanalCantiga, do Paco, no YouTube. Parabéns!
José Freire interpreta, no Mouraria, uma letra de Luís Durão
Homenagem a Luís Durão Homem probo, amigo leal Luís Durão pertenceu a um grupo mítico de fado lisboeta, chamado “Os Feiticeiros”, onde pontuavam João Ferreira Rosa, João Braga, Ana Rosmaninho e muitos outros. Esses amigos, trouxe-os ele ao Sardoal, várias vezes, para actuarem nas Festas de Setembro do início dos anos 70 do século passado. Faleceu em 7 de Novembro último e a sua homenagem póstuma é aqui feita por Nuno Roldão… Conheci o Luís na infância, quando ele e os pais vieram residir no Sardoal na Quinta de S. Bruno (vulgo Quinta do Carapuço). Foi porém na juventude que a nossa amizade se fortificou, sobretudo através do Álvaro Bandeira. Tenho na memória “patuscadas” várias, quer na quinta, quer noutros locais do Sardoal, feitas com a rapaziada daquele tempo. Com ele travei conversas múltiplas, próprias da juventude e da nossa imaturidade. Com o seu vozeirão tonitruante, bem cedo revelou ser pessoa muito directa, muito pão-pão, queijo-queijo, o que nem sempre era bem entendido por terceiros, sobretudo os adultos. Rosto sempre fechado, um pouco truculento nos diálogos e até nas atitudes, por vezes exaltado e brusco, mas nunca lhe vi guardar rancores. Mais tarde, noutras conversas travadas com ele e com outros do grupo, já em fase de maturidade, bem entendi que como cidadão ele pensava que as verdades não constituíam ofensa, ofensas eram as mentiras. Pensava e agia desse modo frontal. Pessoa sem artifícios de postura e de linguagem, inconformista, essa atitude granjeou-lhe incompreensões, inimizades, ostracismos e muita amargura. Mas a verdade é que o Luís Durão era um homem probo, de coração aberto, amigo leal, solidário com os outros, embora nunca o aparentasse. Sabia ser cordial, afável e simpático no trato. Era uma personagem em conflito consigo próprio. Um dia, ali para os lados de S. Pedro de Alcântara, em pleno PREC, encontrámo-nos casualmente, numa manifestação política do PS. Ele tinha construído uma bandeira com um pano vermelho, aonde colara o símbolo do PS feito em papel. A bandeira pregou-a a um pau de vassoura. Era como que uma sua imagem de marca pessoal. Esta peripécia ficou-me sempre na memória. Cedo porém, como aconteceu com muitas pessoas esclarecidas, afastou-se das movimentações político-partidárias e um dia revelou-me ser um socialista-libertário, muito próximo do pensador Bakunine, a quem imitava nas barbas na perfeição. Contei um dia esse “flash” à mãe, D. Lurdes Durão, que me disse: “O Nuno não ligue, o Luís é um sonhador, e pensa que pode endireitar o mundo, o que ele queria era ver toda a gente feliz”. Talento na música Pelo seu temperamento era um “revoltado” contra o “establishement”. Algumas vezes comentou comigo as desmedidas desigualdades sociais e a impossibilidade de o cidadão comum ter voz. Era uma personalidade em dia com o seu tempo, embora contra o tempo. No Sardoal era conhecido sobremaneira pelo seu talento inato na música e para as questões culturais, que sabia avaliar com a sua formação de economista. Foi um bom fadista amador e um guitarrista virtuoso. Faz parte de uma geração de fadistas locais, entre os quais incluo o meu irmão Ismael Roldão, o Fernando Vale de Rio Grácio e outros do Sardoal e de Lisboa, que ocasionalmente se lhes juntavam. Lamentavelmente, nos últimos doze anos, talvez mais, devido ao agravamento da sua doença, aliada a outras vicissitudes da vida que não cabem neste texto, tornou-se esquivo, fugindo das pessoas, criando uma “muralha” à sua volta, caindo num quase total isolamento, por certo tormentoso. Em 7 de Novembro de 2009, chegou a sua hora e, provavelmente face ao seu amargor, teria sido para ele uma libertação, um fim para o seu sofrimento. É mais um amigo dilecto que parte. Aqueles que, mesmo de longe, nunca deixaram de o estimar, hão-de lembrá-lo sempre pela sua espontaneidade, postura sincera e bondade encapotada. Honraremos pois a sua memória de homem bom. Sabemos todos que a amizade genuína entre as pessoas não as liberta daqueles que faleceram, sabemos também que ele “viverá” connosco. Mais memórias da nossa memória. Nuno Roldão (Foto cedida por Ana Durão, através de Ismael Roldão) in "O Sardoal", nº 61
Lembrar António Calvário, uma referência da Canção Nacional, interpretando um original de César de Oliveira e de F. Carvalho, PopFado, com uma letra muito interessante que nos fala do novo fado, da época de então e também d'agora, que é democrata, que mudou de estilo, se ligou à arte abstracta, particularmente em concordata com tudo aquilo :) que se deixou da vadiagem, que é todo intelectualizado e quis portanto aprender a linguagem e a mensagem do pop fado, ah! ah! está-se bem, pois é, era :) ... Pop fadista, sem rei nem pop!... Popem lá, qu'é popelar!
Se alguém já fez tão bem... seria tonto não aproveitar o trabalho já feito.
Assim, com os meus renovados agradecimentos ao EradoGramophone,por mais este documento tão importante para a memória do Fado, que nos permite escutar esta notável actriz e cantadeira, vamos ouvi-la num dos seus êxitos, o "Fado Anita".
Ainda está a tempo de visitar esta exposição "Amália no Mundo - O mundo de Amália"
Peças inéditas de Amália expostas por JOÃO MOÇO 31 Julho 2009
Está patente no Panteão Nacional até 15 de Novembro a mostra 'Amália no Mundo - O Mundo de Amália', que destaca a carreira internacional da fadista Ontem ao final da tarde um cantor espanhol cantava Amália no Panteão Nacional. A voz era de Juan Santamaria, acompanhado pelos músicos que durante anos estiveram ao lado da fadista: Joel Pina, Lelo Nogueira e Carlos Gonçalves. Mas antes já muitos tinham passado pela exposição que se inaugurou naquele espaço, Amália no Mundo - O Mundo de Amália. Esta mostra tem como um dos principais objectivos "promover e divulgar" a dimensão da carreira internacional da fadista. Isabel Melo, directora do Panteão, considera mesmo que "os portugueses não têm a noção da verdadeira dimensão que Amália teve no estrangeiro", disse ao DN. Ao todo nesta exposição, que assinala os dez anos da morte da fadista, estão presentes entre 140 a 150 objectos relacionados com Amália Rodrigues, desde vestidos, sapatos, jóias ou luvas que usou em concertos, bem como programas dos espectáculos que deu no estrangeiro ou até cartazes desses concertos, nomeadamente um relativo a um concerto que ocorreu na Rússia em 1970. O espólio que constitui a exposição é proveniente da Fundação Amália Rodrigues, do Museu do Teatro e de algumas colecções de privados. Segundo Isabel Melo, estes permitiram que a mostra revelasse "alguns objectos inéditos de Amália", como por exemplo o seu primeiro passaporte, de 1943, "quando ela foi pela primeira vez a Espanha, convidada pela Embaixada de Portugal", sublinhou. A directora do Panteão Nacional enumerou ainda outros objectos em destaque, como "um quimono, todo bordado a fio de prata, que lhe foi oferecido da primeira vez que foi ao Japão, em 1970" ou "uma mala de viagem", que Isabel Melo julga ter sido a primeira da fadista. A directora do Panteão Nacional reforça que "todas as peças têm uma história", sendo que a maior dificuldade em organizar esta exposição foi mesmo "seleccionar o que seria mais relevante". Isabel Melo contou que ao organizar esta mostra se deparou "com tanta informação importante" que teve alguma dificuldade no processo de selecção. Além dos vários objectos pessoais e dos programas de espectáculos, que até 15 de Novembro se encontram no Panteão Nacional, nesta exposição está ainda integrado o documentário The Art of Amalia, de Bruno de Almeida, que conta com vários depoimentos da fadista. A mostra está ainda integrada num percurso "que inclui o Museu da Água e o Museu do Fado, durante o qual as pessoas visitam os três espaços, acompanhadas por um animador e assim ficam a conhecer melhor a história de Amália", referiu Isabel Melo. No Panteão Nacional haverá ainda um serviço educativo que realizará visitas guiadas e ateliers dedicados às crianças, onde estas podem criar uma banda desenhada, aprendendo sobre quem foi Amália. Isabel Melo referiu que esta é uma das "missões" desta mostra, a de fazer que "Amália Rodrigues permaneça na memória das gerações vindouras". A exposição estará patente até 15 de Novembro, sendo que para visitá-la apenas se paga "o ingresso de entrada no Panteão, que é de 2,5 euros".
Esta é a homenagem possível ao meu ciber amigo Américo que, na belíssima Gondarém - Vila Nova de Cerveira, canta o fado "à luz da candeia", nas noites fadistas do Kalunga...
De facto, o fado não é apenas canção de Lisboa, é Canção Nacional, que se canta e ouve onde quer que se encontre uma Alma Lusa!
O fado que escolhi para este vídeo é da autoria de Óscar Martins e é interpretado no Fado das Horas.
Artigos de Opinião 2008-06-11 12:17 “As nossas belas ilhas possuem características diferentes mas, para mim, a ilha Verde tem a inconfundível paisagem das lagoas das Setes Cidades, o famoso Vale das Furnas e as típicas águas quentes, frias e mornas“. Dizia-me em 1969 a consagrada cançonetista Maria Pereira, que actuou por várias vezes nos Açores, assim como na Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Espanha e Bélgica. Maria Pereira, que durante anos actuou na rádio, não foi só uma portuguesa do Fado, como uma voz de Portugal. Que o digam os seus muitos adeptos, e muitos foram, no país ou no estrangeiro, e que certamente ainda têm discos da vasta discoteca que a cantora deixou. Tudo Maria Pereira cantou. Interpretou canções da nossa terra, transmitiu melodias e versos, tendo percorrido todos os caminhos do mundo português, pois em qualquer parte onde se falasse o nosso idioma, Maria Pereira era conhecida. A propósito, recordamos uma inesquecível passagem ocorrida na sua vida artística, na primeira vez que Maria Pereira se deslocou a Moçambique. Cantava no Teatro Moçâmedes e, quando actuava, um senhor de oitenta anos, entrou no palco interrompendo a actuação. Agarrou-se à artista, a chorar, e disse: ”Há trinta anos que saí de Lisboa, e não mais ouvi uma artista cantar”. A cançonetista havia interpretado um fado triste “menor”, fado esse que a mãe do ancião costumava cantar para o adormecer. Fado canção e castiço Maria Pereira definia assim o fado : “O fado-canção é mais bonito. O fado-castiço é um grito de alma. A canção tem mais arte e outras características”. Maria Pereira, que na altura que a entrevistei já havia gravado mais de seiscentos discos, recordava que um dos seus maiores êxitos na altura havia sido “O meu Primeiro Amor “, que fez parte de um filme em que participara. Do seu vasto reportório fazia parte, entre outros, “Açores dos meus Amores”, que a cançonetista levava nas suas digressões, salientando que, quando cantava essa canção, o público entusiasticamente acompanhava-a. “Maria Pereira, Um Fado e Três Canções” e “Maria Pereira e o seu espectáculo” são dois filmes em que a cançonetista participou. Para aqueles que se lembram de Maria Pereira, deixámos aqui este breve apontamento de recordação. Para os mais novos e não só, reafirmo de novo que foi uma das grandes fadistas portuguesas. (in http://www.acorianooriental.pt/ )